Quem cresceu ouvindo histórias do interior provavelmente já escutou algum conselho vindo dos mais velhos antes de entrar na mata: “não mexe com o que é da floresta” ou “se escutar assovio, não responde”. Entre ribeirinhos, caçadores, extrativistas e moradores da Amazônia, histórias sobre pessoas que entram em caminhos conhecidos e, de repente, parecem perder totalmente o rumo, atravessam gerações.
Para muitos, trata-se apenas de desorientação. Para outros, é a ação do Curupira, uma das figuras mais conhecidas do imaginário amazônico, descrita como a entidade protetora da floresta, responsável por confundir quem entra na mata sem respeito ou atenção.

Foi em meio a esse universo de crenças e experiências compartilhadas que apanhadores de açaí em Anajás, no arquipélago do Marajó, afirmaram ter vivido uma situação incomum enquanto trabalhavam.
Leia mais:
- Visagens de Belém: ouça 5 histórias que ninguém nunca contou
- Por que Belém tem tantas histórias de assombração? Entenda!
- Vídeo: ‘Visagem’ é vista em cemitério do Tapanã, em Belém
Durante a colheita, os trabalhadores começaram a perceber sinais estranhos na mata como sons incomuns, a sensação de estarem sendo observados e a impressão de que o caminho parecia nunca levar ao destino certo, características frequentemente associadas às histórias sobre o Curupira.
O episódio ganhou repercussão após ser compartilhado nas redes sociais por Tiago Mendes, criador de conteúdo com mais de 400 mil seguidores, conhecido por mostrar o cotidiano ribeirinho. Em um dos vídeos, o apanhador de açaí relatou a experiência e ensinou uma técnica popular usada por moradores da floresta quando acreditam estar sendo “enganados” pela mata.
“Eu falei pra ele: ‘Sai da minha cola’. Enrolei o cipó e falei: ‘Tem que ser rápido’. Tu enrola o cipó e tem que sair rápido mesmo, porque ela vai pegar o cipó, vai fazer de tudo pra desenrolar”, contou.
Segundo ele, o grupo já caminhava sem rumo, repetindo trajetos, quando percebeu que algo estava errado. “Já andávamos em círculo. Aí eu malhei, né? Pensei: ‘Pô, tem alguma coisa errada’. Vocês que são moleques novos no mato, quando estiver perdido, faz isso aqui”, disse enquanto mostrava um cipó enrolado entre a vegetação.
Quer ler mais notícias de entretenimento? Acesse o canal do DOL no WhatsApp!
No linguajar ribeirinho e nortista, “malhar” pode significar reparar, observar ou perceber algo, um olhar atento, característico de quem cresceu convivendo com os rios e a floresta.
Confira
Internautas relatam experiências semelhantes
O vídeo rapidamente gerou identificação entre seguidores, que aproveitaram os comentários para compartilhar experiências próprias envolvendo situações difíceis de explicar na mata.
O internauta Rafael Veras relembrou um episódio vivido ainda na infância, no sítio do avô.
“Quando eu era criança, fui pegar castanhas de caju em um terreno roçado. Quando saí da estradinha e entrei no lote, foi como se minha cabeça tivesse girado e perdi totalmente o sentido da localização. Tive vontade de entrar mais pra dentro da mata, mas parei e comecei a observar tentando achar um norte. Foi quando ouvi a voz dos meus primos e consegui voltar. Foi uma experiência muito estranha”, contou.
Já Jamile Loureiro compartilhou a história do pai, que teria se perdido durante uma caçada em uma área onde costumava ir com frequência.
“Meu pai foi caçar num lugar que já conhecia. Em determinado momento, ouviu algo pulando de uma árvore. Pensou que fosse um animal, mas depois o som pareceu de gente. Quando iluminou, não tinha nada. Tentou voltar, mas não conseguia achar a estrada. Ficou perdido das oito da noite até três da manhã. Depois de orar, ouviu um cachorro uivar e decidiu seguir o som. Foi assim que encontrou a saída”, relatou.

Outros comentários reforçaram crenças ainda muito presentes no cotidiano amazônico. “Isso é real. O Curupira faz você se perder na mata. Se sentir as pernas fracas, é porque ele está pertinho”, escreveu a internauta Line.
Já Michael Oliveira contou que sempre seguia um costume aprendido com pessoas mais antigas da região. “Sempre levava fumo Arapiraca pra deixar pra eles”, comentou.
O internauta Vitor Taveira também relembrou uma situação parecida durante uma retirada de açaí com o pai. “A gente andava em círculo. Conseguimos achar o caminho pelo barulho do navio passando no rio, onde estava nossa canoa”, disse.
Quando a mata também me confundiu
Enquanto lia os comentários, uma lembrança da infância voltou à memória de quem escreve esta reportagem.
Eu tinha entre 10 e 11 anos quando fui passar férias na casa dos meus avós maternos, no povoado Áreas Alegres, próximo ao município de Cândido Mendes, no interior do Maranhão. Meu primo Tiago, então com cerca de 7 ou 8 anos, cresceu naquele lugar e conhecia bem a região.
Numa manhã, por volta das 8h, ele me convidou para pescar traíra em um riacho próximo à casa da minha avó. Avisamos a família e atravessamos a mata que ficava em frente à casa.
No começo, tudo parecia normal. Como não encontramos peixes, fomos subindo o rio e explorando novos pontos de pesca. Depois de algum tempo, decidimos seguir por uma trilha até outro riacho, também conhecido por ele.
Foi aí que algo começou a parecer estranho
Andávamos, andávamos, mas não encontrávamos a saída nem o caminho do rio. Meu primo, que conhecia aquela mata, começou a duvidar. Pegava um caminho, voltava, tentava outro. Até que percebi que estávamos andando em círculo.
Perguntei o que estava acontecendo e ele respondeu, com a calma de quem tentava não me assustar e revelou que estávamos perdidos.
Comecei a chorar...
Lembro de ouvir assovios vindos da mata e sons que, até hoje, não consigo explicar. Meu primo então lembrou de uma crença ensinada pelos mais velhos e sugeriu que virássemos a roupa do avesso. Depois de horas tentando encontrar uma saída, fizemos isso e algo mudou.
Pouco tempo depois, encontramos um tronco de árvore caído e passamos por um canavial. Quando voltamos para casa (já por volta das 15h, depois de sairmos às 8h da manhã) contamos tudo à família.
Minha avó, hoje falecida, ouviu atentamente o relato e fez um comentário que nunca saiu da minha memória, segundo ela, aquele canavial simplesmente não existia naquela região.
Anos depois, a lembrança segue viva. Os assovios no meio da mata, a sensação de caminhar em círculos, o medo de não encontrar a saída e a frase dita pela minha avó permanecem como uma memória difícil de explicar.
Os saberes da mata
Enrolar um cipó

Entre ribeirinhos, mateiros e moradores de comunidades tradicionais, existem práticas passadas de geração em geração para tentar “quebrar o encanto” quando alguém se perde na floresta.
Uma das mais conhecidas é enrolar um cipó, dar um nó e esconder bem as pontas. Segundo a crença popular amazônica, entidades como o Curupira ou a Caipora ficariam distraídas tentando desfazer o nó, permitindo que a pessoa reencontre o caminho.
Para os mais antigos, o ritual deve ser feito rapidamente, pegar um cipó, enrolá-lo, esconder as pontas e, em alguns casos, fazer um pedido ou promessa.
Virar a roupa do avesso
Outra prática muito conhecida é virar a roupa do avesso. A crendice diz que isso ajudaria a “desfazer” a confusão provocada pelas entidades da floresta, fazendo a pessoa recuperar a orientação.
Mito ou verdade? O que fazer se se perder na mata
Independentemente da crença, especialistas em sobrevivência reforçam que, em situações reais de desorientação, o ideal é manter a calma e seguir técnicas práticas.
Entre as orientações estão acompanhar o curso de rios ou córregos, já que a água geralmente leva a áreas habitadas; observar a posição do sol e das sombras para manter uma direção constante; e evitar caminhar sem rumo durante a noite.
Se estiver cansado, machucado ou anoitecendo, a recomendação é permanecer em um local seguro até conseguir ajuda.
Dica de segurança: antes de entrar em áreas de mata densa, informe alguém de confiança sobre o trajeto e o horário estimado de retorno. Em situações de emergência, o Corpo de Bombeiros pode ser acionado pelo telefone 193.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.








Comentar