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AVALANCHES DE GELO E ROCHA

A tragédia no Nepal pode se repetir na América do Sul? Entenda

Cientistas esclarecem por que eventos parecidos podem ocorrer nos Andes, quais países estão mais expostos e como o aquecimento global pode ampliar riscos.

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Imagem ilustrativa da notícia A tragédia no Nepal pode se repetir na América do Sul? Entenda camera O desastre no Himalaia, que deixou pelo menos 273 mortos, acende um alerta para a América do Sul. Especialistas explicam que regiões dos Andes e até áreas do Brasil reúnem condições para deslizamentos, avalanches e corridas de detritos. | Reprodução/Redes sociais

O desastre no Himalaia, que deixou pelo menos 160 mortos após uma enorme massa de gelo, rochas e água atingir a região entre o Nepal e o Tibete, na China, também chama atenção para os riscos existentes na América do Sul. Especialistas ouvidos pelo portal Terra afirmam que os Andes reúnem condições para ocorrências semelhantes, como grandes deslizamentos, avalanches de gelo e rocha e corridas de detritos.

Segundo o Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), não houve um terremoto responsável pelo episódio registrado na quarta-feira (26/08). O deslocamento da gigantesca massa de rochas, água e gelo gerou energia sísmica equivalente à de um tremor de magnitude 5,2.

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De acordo com Bruno Collaço, sismólogo do Centro de Sismologia da USP, o tipo de evento registrado no Nepal está associado a uma combinação de fatores encontrada em grandes cordilheiras com presença de gelo.

Entre eles estão encostas extremamente inclinadas, grandes diferenças de altitude, degradação do permafrost, lagos glaciais represados e vales cortados por rios. A ocupação humana também aumenta o potencial de danos, principalmente quando existem cidades, estradas e estruturas como usinas hidrelétricas em áreas vulneráveis.

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O especialista explica que o gelo existente dentro das rochas pode funcionar como uma espécie de elemento de sustentação do maciço. Com sua degradação, estruturas que permaneceram estáveis durante milhares de anos podem perder resistência.

DESLIZAMENTO NÃO É O MESMO QUE ROMPIMENTO DE LAGO GLACIAL

Collaço destaca ainda que o fenômeno ocorrido no Nepal não deve ser automaticamente classificado como rompimento de lago glacial.

Embora os dois processos possam produzir consequências semelhantes, os mecanismos são diferentes. As primeiras análises citadas pelo especialista apontam para o colapso de uma grande massa de gelo e rocha localizada em uma área elevada.

PERU, CHILE E ARGENTINA ESTÃO ENTRE AS ÁREAS DE ATENÇÃO

Na América do Sul, as condições necessárias para eventos desse tipo podem ser encontradas em diferentes pontos da Cordilheira dos Andes.

Collaço cita regiões de Ancash e Cusco, no Peru, a Cordilheira Real, na Bolívia, além de áreas com vulcões cobertos por gelo no Equador e na Colômbia. Chile e Argentina também apresentam locais que merecem atenção.

Um exemplo histórico ocorreu em Mendoza, na Argentina, em 1934, quando houve o rompimento de um lago represado pelo Glaciar Grande del Nevado, no Río Plomo.

CORRIDAS DE DETRITOS PODEM CAUSAR DESTRUIÇÃO EM MINUTOS

Diogo Coelho, doutor em Geodinâmica e Geofísica, sismólogo e pesquisador do Observatório Nacional, também considera a região andina suscetível a eventos de grande potencial destrutivo. Entre eles estão as chamadas corridas de detritos, capazes de transportar rapidamente lama, rochas, água e outros materiais por encostas e canais.

Para que esses fenômenos ocorram, é necessária a combinação de fatores como elevada inclinação do terreno, grande quantidade de água e disponibilidade de material que possa ser mobilizado.

"A região andina reúne as condições geológicas e climáticas perfeitas para o desencadeamento das destrutivas corridas de detritos: possui montanhas de altíssima declividade, vales profundos e instabilidade tectônica, tudo isso frequentemente combinado com eventos de chuvas extremas ou degelo acelerado", explica.

Segundo Coelho, praticamente toda a extensão montanhosa dos Andes está sujeita ao risco. O perigo é especialmente relevante em encostas e vales estreitos de países como Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e Chile.

OCUPAÇÃO HUMANA AMENTA O POTENCIAL DE TRAGÉDIA

O risco não depende apenas das características naturais. A presença de comunidades em áreas suscetíveis pode transformar um fenômeno geológico em uma grande catástrofe.

Coelho chama atenção para os chamados leques aluviais, regiões onde os materiais transportados naturalmente tendem a se acumular. A ocupação desses espaços pode deixar populações expostas justamente às áreas de deposição de lama, pedras e outros sedimentos.

AQUECIMENTO GLOBAL PODE AUMENTAR A FREQUÊNCIA DOS EVENTOS

Embora a ciência ainda não consiga estabelecer uma probabilidade precisa para a ocorrência de um desastre específico, há preocupação com os efeitos do aquecimento global sobre regiões de alta montanha.

Segundo Collaço, o derretimento do gelo que ajuda a estabilizar paredes rochosas pode favorecer o colapso de estruturas que permaneceram preservadas por milhares de anos.

"Com o aquecimento global, a tendência é que esses eventos aumentem em quantidade, pois o gelo que estabiliza paredes rochosas em grandes altitudes derrete e maciços que estavam estáveis há milhares de anos podem ceder", aponta.

AMÉRICA DO SUL JÁ REGISTROU TRAGÉDIAS DE GRANDE ESCALA

Os riscos nos Andes não são apenas uma possibilidade futura. A história do continente registra deslizamentos, avalanches e corridas de detritos que provocaram milhares de mortes.

Em 1962, uma avalanche de gelo em Ancash, no Peru, destruiu a cidade de Ranrahirca e matou entre 4 mil e 5 mil pessoas. O episódio é particularmente relevante porque não esteve relacionado a um terremoto.

Outro caso ocorreu na Colômbia, em 1985, após a erupção do vulcão Nevado del Ruiz. O derretimento das geleiras provocou fluxos de lama que atingiram Armero e deixaram mais de 20 mil mortos.

Coelho também cita dois outros desastres para dimensionar o histórico sul-americano: a Tragédia de Vargas, na Venezuela, em 1999, e o desastre de Mocoa, na Colômbia, em 2017.

Em Vargas, dias de chuvas torrenciais provocaram o deslizamento de encostas e gigantescos fluxos de detritos que destruíram cidades inteiras. As estimativas de mortos variam entre 10 mil e 30 mil pessoas. Em Mocoa, na Colômbia, uma corrida de detritos deixou mais de 250 mortos.

E O BRASIL CORRE O MESMO RISCO?

O Brasil também está sujeito a corridas de detritos, mas o cenário é diferente do encontrado nas grandes montanhas do Himalaia e dos Andes.

Como o país não possui cadeias montanhosas com as mesmas condições de gelo em altitudes extremas e apresenta estabilidade tectônica maior, os principais gatilhos estão relacionados à combinação de chuvas intensas, encostas íngremes e ocupação inadequada do solo.

Segundo Coelho, esses fluxos acontecem quando uma mistura de terra, água e ar desce rapidamente por canais de drenagem com alta declividade.

A Serra do Mar é apontada como uma das principais áreas de ocorrência no país, devido à combinação entre relevo acidentado e elevados índices de chuva.

SERRA DAS ARARAS E REGIÃO SERRANA DO RIO ESTÃO ENTRE OS EXEMPLOS

O pesquisador cita dois dos episódios mais graves relacionados a movimentos de massa e chuvas extremas no Brasil.

Na Serra das Araras, em 1967, estimativas apontam cerca de 2 mil vítimas. Desse total, aproximadamente 300 foram identificadas e cerca de 1.700 permaneceram desaparecidas após os soterramentos.

Já em janeiro de 2011, a Região Serrana do Rio de Janeiro enfrentou aquela que é considerada a maior tragédia climática da história do Brasil. As chuvas que atingiram a região no dia 11 daquele mês provocaram mais de 900 mortes e deixaram quase 100 pessoas desaparecidas.

Para Coelho, além das condições naturais, a vulnerabilidade brasileira também está relacionada ao uso do solo. "Aqui temos condições geológicas favoráveis para isso, devido ao alto volume de chuva e a alta declividade na cadeia de montanhas. Além do uso problemático do solo que retira a vegetação e expõe o material à intempéries", alerta.

É POSSÍVEL PREVER UMA AVALANCHE OU CORRIDA DE DETRITOS?

A ciência ainda não consegue determinar com precisão quando uma grande massa de gelo, rocha ou terra vai se desprender. Existem, entretanto, sistemas capazes de acompanhar sinais de instabilidade e emitir alertas em determinadas circunstâncias.

Redes sismográficas conseguem identificar movimentos desse tipo mesmo quando ocorrem a milhares de quilômetros de distância. Segundo Collaço, dependendo da estrutura disponível, essas informações podem oferecer de alguns minutos a até horas de vantagem. Isso não significa, porém, que seja possível prever exatamente o momento de um colapso.

Outras tecnologias também podem monitorar mudanças em encostas e áreas suscetíveis. Mesmo assim, o especialista reforça que determinar precisamente quando ocorrerá o rompimento ainda não é possível.

MONITORAMENTO PRECISA COMBINAR CHUVA, RIOS E HISTÓRICO DE DESASTRES

Para Coelho, um sistema eficiente de alerta deve reunir diferentes fontes de informação em tempo real.

Entre os dados necessários estão registros meteorológicos, volume de chuva, vazão dos rios e histórico de ocorrências na região. A partir dessas informações, modelos matemáticos podem estabelecer limites de precipitação associados ao risco de uma corrida de detritos.

"O sistema ideal opera combinando tecnologia de monitoramento em tempo real e o conhecimento dos desastres prévios da região", argumenta o especialista.

A proposta é estabelecer uma linha de referência de chuva. Quando a precipitação ultrapassar determinado limite considerado crítico para aquela área, o sistema poderá disparar um alerta sobre a possibilidade de ocorrência de uma corrida de detritos.

EQUIPAMENTOS ENFRENTAM DIFICULDADES EM ÁREAS REMOTAS

A instalação e manutenção desses sistemas, no entanto, são desafios importantes. Regiões montanhosas de difícil acesso exigem equipamentos resistentes e manutenção frequente.

Segundo Coelho, instrumentos de alta precisão ficam expostos permanentemente às condições ambientais e precisam de conservação rigorosa para continuar funcionando adequadamente.

Collaço acrescenta que, em grandes altitudes, a própria instalação dos equipamentos pode ser complexa. Além disso, determinados eventos não apresentam sinais prévios suficientes para permitir uma antecipação segura.

Por isso, o desastre registrado no Himalaia serve também como alerta para a América do Sul: embora os mecanismos possam variar entre uma região e outra, montanhas instáveis, água, gelo, chuvas extremas e ocupação humana podem transformar fenômenos naturais em tragédias de grandes proporções.

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