A decisão do governo dos Estados Unidos de incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras marca uma mudança significativa na política de segurança norte-americana para a América Latina e provoca reações no governo brasileiro.
O anúncio foi feito pelo Departamento de Estado norte-americano na quinta-feira (28), com entrada em vigor prevista para 5 de junho. A medida coloca as duas maiores facções criminosas do Brasil no mesmo enquadramento jurídico aplicado a grupos extremistas internacionais como Al-Qaeda, Estado Islâmico e Hezbollah.
Segundo o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, PCC e CV representam “ameaças significativas à segurança regional” e mantêm redes criminosas que ultrapassam as fronteiras brasileiras. Washington afirma que as organizações atuam em esquemas de tráfico internacional, lavagem de dinheiro e violência armada em diversos países das Américas.
A classificação permite ao governo norte-americano aplicar sanções financeiras mais rígidas, bloquear ativos ligados às facções e ampliar mecanismos de cooperação internacional no combate ao crime organizado. Bancos, empresas e instituições que mantenham relações comerciais indiretas com integrantes ou operadores associados aos grupos também podem ser alvo de punições previstas na legislação antiterrorismo dos EUA.
O PCC e o CV passam a figurar na mesma listagem de grupos como Al-Qaeda, Hezbollah, Estado Islâmico e Hamas.
Entre os grupos incluídos também estão o Cartel de Sinaloa, o CJNG (Cartel de Jalisco Nueva Generación), o Trem de Aragua, da Venezuela, as facções equatorianas Los Choneros e Los Lobos, e as coalizões de gangues do Haiti, como a Viv Ansanm.
PREOCUPAÇÃO NO BRASIL
No Brasil, a decisão foi recebida com cautela e desconforto pelo governo federal. O Palácio do Planalto sustenta que PCC e CV são organizações criminosas com finalidade econômica e territorial, sem motivação ideológica ou religiosa, critérios considerados essenciais pela legislação brasileira para caracterizar terrorismo.
A divergência jurídica já havia sido apresentada oficialmente a representantes norte-americanos em reuniões realizadas em Brasília nos últimos meses. Integrantes do governo Lula argumentam que a adoção do termo “terrorismo” pode abrir precedentes para pressões diplomáticas, sanções econômicas e até justificativas políticas para interferências externas em temas de segurança pública.
Após o anúncio, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que o combate ao crime organizado exige cooperação internacional, especialmente em áreas como lavagem de dinheiro e tráfico de armas, mas rejeitou qualquer possibilidade de intervenção estrangeira sob esse argumento.
A decisão também ganhou dimensão política. Nos bastidores de Washington, aliados do senador Flávio Bolsonaro defenderam junto ao governo Donald Trump o enquadramento das facções brasileiras como grupos terroristas. A medida foi celebrada por setores da oposição brasileira como um endurecimento internacional contra o crime organizado.
Especialistas avaliam que o impacto imediato será mais financeiro e diplomático do que operacional. A inclusão do PCC e do CV na lista de organizações terroristas tende a aumentar o monitoramento internacional sobre movimentações bancárias, rotas de tráfico e empresas suspeitas de ligação com as facções.
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Ao mesmo tempo, a medida pode gerar efeitos econômicos indiretos sobre instituições brasileiras que operam no sistema financeiro internacional, especialmente aquelas sujeitas à legislação norte-americana.
A decisão dos EUA reforça uma estratégia adotada pelo governo Trump em 2025, quando organizações criminosas latino-americanas passaram a ser tratadas como ameaças terroristas. Cartéis mexicanos, facções venezuelanas, gangues haitianas e grupos criminosos do Equador também foram incluídos nas listas de terrorismo internacional ao longo do último ano.
O episódio aprofunda as diferenças entre Brasília e Washington sobre segurança regional e sinaliza que o combate ao crime organizado pode se tornar um dos principais temas da relação bilateral nos próximos meses.
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