Enquanto o Clube do Remo tenta se manter financeiramente equilibrado em sua primeira temporada na Série A após 32 anos, outros grandes clubes brasileiros mostram que o endividamento nem sempre impede investimentos no futebol. Casos recentes de Santos e Vasco da Gama expõem um cenário que pode gerar vantagem esportiva para equipes dispostas a assumir riscos financeiros e que disputam diretamente a permanência com o Leão Azul na Série A em 2027, justamente quando o futebol brasileiro começa a implementar regras mais rígidas de Fair Play Financeiro.
Se, por um lado, o clube paraense tem adotado uma postura mais conservadora no mercado, tendo reflexo na avaliação do sistema de Fair Play Financeiro da CBF, em que o Leão aparece dentro dos parâmetros considerados adequados de solvência, relação entre custos e receitas e liquidez. Seus concorrentes diretos na luta contra o rebaixamento, Santos (14°) e Vasco (19°), adotam o caminho inverso, mesmo estando em graves problemas financeiros, transferban na FIFA e, no caso do cruz-maltino, em recuperação judicial.
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O Santos é um dos principais exemplos. O clube está sob transfer ban por causa de uma dívida de aproximadamente R$ 12 milhões com o Monaco (FRA), relacionada à contratação do volante Jean Lucas, em 2023. A punição impede o registro de novos jogadores até que a pendência seja resolvida.
Mesmo enfrentando a restrição, o Peixe avançou pela contratação do volante Arthur Melo, que deixou a Juventus e teria acertado as bases salariais na casa dos R$ 3 milhões mensais, segundo informações divulgadas pelo portal Meu Peixão e reproduzidas pelo Terra. O jogador é aguardado em Santos nesta quinta-feira (27).
A movimentação acontece em meio a problemas de caixa. Em julho, o Santos atrasou salários dos jogadores e acumulava dois meses de direitos de imagem pendentes, além de outras obrigações com comissão técnica, funcionários e terceiros.
Vasco e os empréstimos milionários
O Vasco apresenta um cenário ainda mais emblemático. Em recuperação judicial, o clube pediu autorização à Justiça para contratar um novo empréstimo de R$ 150 milhões, alegando necessidade urgente de caixa para cumprir obrigações. Porém, documentos apresentados no processo mostram que o Vasco previa desembolsar R$ 86,4 milhões em contratações entre agosto e setembro, sendo R$ 67,6 milhões em agosto e R$ 18,8 milhões no mês seguinte, segundo o blog do jornalista Rodrigo Mattos, do UOL,
A própria juíza Simone Chevrand questionou a prioridade dada aos reforços. Enquanto o Vasco previa quase R$ 90 milhões para contratações, a projeção indicava cerca de R$ 13 milhões para o pagamento de dívidas no mesmo período. O clube também prevê um déficit de aproximadamente R$ 300 milhões em 2026. O pedido do novo empréstimo foi negado pela Justiça, e o Vasco ainda pode recorrer.
A operação também envolve outro ponto sensível: o dinheiro seria emprestado pela empresa Almirante, de Marcos Lamacchia, que possui pré-acordo para comprar a SAF vascaína. Somando empréstimos anteriores da Crefisa, o grupo empresarial já teria colocado cerca de R$ 270 milhões no Vasco. A Justiça demonstrou preocupação com o aumento dessa dívida e com a possibilidade de que os empréstimos antecipem, na prática, benefícios ao futuro comprador da SAF.
Ainda segundo o blog, o caso do volante Santiago Sosa reforça a capacidade de clubes endividados encontrarem alternativas para contratar. O Vasco conseguiu viabilizar a negociação com o Racing, de aproximadamente US$ 7,5 milhões, depois que a Crefisa ofereceu um aval bancário para garantir o pagamento ao clube argentino. A operação mostra que a falta de dinheiro imediato no caixa não necessariamente impede uma equipe de realizar investimentos quando existem garantias, empréstimos ou antecipação de recursos.
Desequilíbrio pode afetar o Remo na reta final
É nesse contexto que aparece o Remo. O clube paraense tem adotado uma postura mais conservadora no mercado e, segundo informações divulgadas em julho, estava entre os clubes da Série A com salários em dia. Na avaliação do sistema de Fair Play Financeiro da CBF, o Leão aparecia dentro dos parâmetros considerados adequados de solvência, relação entre custos e receitas e liquidez. A análise considerou dados financeiros de 2023, 2024 e 2025.
O contraste é significativo: enquanto o Remo procura controlar despesas, adversários com dificuldades econômicas amplamente divulgadas podem utilizar empréstimos, garantias, renegociações e antecipação de receitas para manter investimentos elevados no elenco.
O problema, portanto, não é apenas contábil. É esportivo. Se um clube endividado consegue contratar utilizando recursos de terceiros ou renegociando obrigações, enquanto outro evita gastos para manter suas contas em ordem, a responsabilidade financeira pode acabar se transformando em desvantagem dentro de campo. Para o Remo, que luta contra o rebaixamento contra os clubes citados, cada ponto e cada reforço podem ter peso decisivo.
O novo Fair Play Financeiro da CBF surge justamente para tentar reduzir esse desequilíbrio. As regras preveem punições que podem chegar a multa, bloqueio de receitas, transfer ban, perda de pontos, rebaixamento e até cassação da licença. A questão central para o Remo é saber se o novo sistema conseguirá impedir que clubes que não conseguem pagar suas obrigações continuem encontrando caminhos para investir pesado no futebol.
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