Entre a tradição centenária e os desafios financeiros acumulados ao longo dos anos, o Paysandu Sport Club inicia um dos capítulos mais delicados de sua história fora das quatro linhas. Acostumado a protagonizar disputas intensas nos gramados e a mobilizar uma das maiores torcidas da Região Norte, o clube agora enfrenta uma batalha jurídica e econômica que pode redefinir seu futuro institucional. A Justiça do Pará deferiu o processamento da recuperação judicial da agremiação bicolor, medida que abre caminho para a renegociação organizada de suas dívidas e suspende, temporariamente, a pressão de execuções e bloqueios.
A decisão foi assinada pelo juiz Ivan Delaquis Perez, da 12ª Vara Cível e Empresarial de Belém, no âmbito do processo nº 082780-23.2026.8.14.0301, e não significa ainda que a recuperação judicial tenha sido concedida de forma definitiva. O que houve foi a autorização para que o clube entre oficialmente no regime previsto na Lei 11.101/2005, que trata da recuperação judicial e falência. Na prática, isso representa o início do processo, com a concessão de proteção temporária contra a maioria das cobranças judiciais, mas ainda sem aprovação de qualquer plano de pagamento.
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No pedido apresentado à Justiça, o Paysandu declarou um passivo inicial de R$ 16.762.086,24. O montante engloba dívidas de diferentes naturezas, incluindo obrigações trabalhistas, débitos cíveis, compromissos contratuais e pendências fiscais. O valor, no entanto, pode sofrer alterações ao longo do processo, já que credores ainda terão oportunidade de habilitar seus créditos. É comum, em recuperações judiciais, que o total consolidado aumente após a verificação detalhada das dívidas.
Segundo argumentou o clube na petição inicial, a crise financeira é resultado de fatores estruturais e conjunturais. Oscilações esportivas entre divisões nacionais, queda de receitas após rebaixamentos, aumento de custos operacionais e a assunção de compromissos baseados em receitas futuras incertas compõem o cenário descrito pela diretoria. Como associação civil, modelo tradicional adotado por grande parte dos clubes brasileiros históricos, o Paysandu também enfrenta limitações administrativas que dificultam ajustes financeiros rápidos e captação de recursos no mercado.
Com o processamento deferido, passa a valer o chamado “stay period”, período de 180 dias em que execuções e penhoras ficam suspensas. Isso significa que ações de cobrança que tramitam na Justiça, inclusive trabalhistas, tendem a ser paralisadas temporariamente, garantindo fôlego ao clube para reorganizar seu fluxo de caixa. Além disso, a decisão judicial dispensou a apresentação de certidões negativas para que a instituição continue exercendo suas atividades, o que permite a manutenção das operações esportivas, contratos e participação em competições.
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Próximos passos?
O próximo passo será decisivo. O Paysandu terá até 60 dias para apresentar um Plano de Recuperação Judicial detalhando como pretende pagar suas dívidas. O documento deverá estabelecer prazos, possíveis descontos, formas de parcelamento e eventuais medidas de reorganização administrativa ou financeira. Após a apresentação, os credores poderão analisar o plano e, caso haja objeções, será convocada uma Assembleia Geral de Credores para deliberar sobre a proposta. Somente se o plano for aprovado e homologado pela Justiça é que a recuperação judicial será efetivamente concedida.
Existe, em tese, o risco de falência caso o plano seja rejeitado e não haja alternativa viável. No entanto, em casos envolvendo instituições de grande relevância social e histórica, o caminho costuma ser a negociação intensa até que se encontre um consenso possível. A recuperação judicial, portanto, não representa encerramento de atividades nem intervenção direta na gestão esportiva, mas sim um instrumento legal para tentar preservar a entidade e reorganizar suas finanças.
Para a torcida bicolor, o momento exige atenção além do desempenho dentro de campo. A disputa agora envolve credores, prazos e decisões estratégicas que podem impactar o futuro do clube a médio e longo prazo. Se bem conduzido, o processo pode representar uma oportunidade de reestruturação e fortalecimento institucional. Caso contrário, os desafios poderão se ampliar. O desfecho dependerá da capacidade de negociação, transparência e execução do plano que será apresentado nas próximas semanas.
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