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FOI TRAÍDA E XINGADA

Por que a mulher sempre leva a culpa? Caso Virginia expõe misoginia

Especialista aponta que hostilidade sofrida pela influenciadora expõe padrões machistas ainda reproduzidos socialmente, inclusive por outras mulheres.

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Imagem ilustrativa da notícia Por que a mulher sempre leva a culpa? Caso Virginia expõe misoginia camera A influenciadora fez um longo desabafo nas redes sociais e revelou que se sentiu "acuada". | Divulgação

Os xingamentos direcionados à influenciadora Virginia Fonseca durante uma partida no Maracanã reacenderam um debate antigo que vai além do universo dos famosos. Por que mulheres continuam sendo responsabilizadas por crises amorosas, traições ou até pelo desempenho emocional e profissional de homens em relacionamentos?

Após a repercussão do episódio envolvendo o jogador Vinícius Jr., ex-namorado da influenciadora, especialistas apontam que situações como essa revelam padrões históricos de misoginia ainda presentes na sociedade.

Para a assistente social e doutoranda da UFPA, Gizelle Freitas, esse tipo de comportamento não acontece de forma isolada, mas faz parte de uma estrutura social marcada pelo machismo.

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“Esse comportamento é explicado pela estrutura de sociedade em que vivemos, que é patriarcal e misógina. A misoginia, assim como o racismo, é estrutural. Historicamente, nós mulheres acabamos sendo culpabilizadas pelos fracassos dos homens, inclusive quando eles estão emocionalmente fragilizados ou enfrentando crises”, afirma.

Segundo a especialista, o julgamento direcionado à Virginia reflete uma lógica antiga de responsabilização feminina, na qual mulheres são apontadas como culpadas até por situações que não controlam.

“A Virginia não foi questionada publicamente, por exemplo, por outras questões sociais relacionadas à sua imagem pública, mas acabou sendo hostilizada pelo fato de o ex-namorado passar por uma fase ruim no futebol. Como se ela tivesse influência negativa sobre o desempenho emocional e profissional dele”, analisa.

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Para Gizelle, a cena no estádio ultrapassa o campo do entretenimento e se configura como violência simbólica e coletiva contra uma mulher exposta publicamente.

“Foi uma cena muito triste. Uma mulher sendo hostilizada diante de milhares de pessoas. Muitas de nós assistimos aquilo com indignação e até com o choro embargado, porque houve uma exposição pública extremamente violenta”, diz.

A especialista também chama atenção para a forma como a misoginia aparece até mesmo na linguagem cotidiana, especialmente no futebol.

“Quando querem ofender um árbitro ou outro homem, muitas vezes os xingamentos evocam figuras femininas, especialmente a mãe ou a imagem da ‘puta’. Isso mostra como nós mulheres somos historicamente colocadas nesse lugar de inferioridade, submissão e objetificação, sendo usadas até como instrumento de ofensa entre homens”, explica.

Apesar do cenário, Gizelle avalia que há avanços no enfrentamento desse comportamento, principalmente por meio da atuação dos movimentos feministas e de mulheres.

Gizelle Freitas - Assistente Social/doutoranda UFPA
📷 Gizelle Freitas - Assistente Social/doutoranda UFPA |( Reprodução / arquivo pessoal )

“É algo cultural, ensinado e reproduzido de geração em geração, na família, na escola, na igreja e até nas brincadeiras das crianças. Mas também temos ensinado, geração após geração, formas de combater essa violência. O movimento feminista tem crescido, estudado e se organizado para enfrentar essas estruturas”, conclui.

Para a especialista, episódios como o vivido por Virginia escancaram uma realidade antiga em novas plataformas, a facilidade com que mulheres ainda são transformadas em alvo de humilhação pública, mesmo quando não ocupam o papel central do conflito. O caso levanta um alerta sobre como o julgamento coletivo ainda carrega marcas profundas de desigualdade de gênero.

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