A saúde mental no trabalho nunca esteve tão em evidência no Brasil. Após o país registrar mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025 (o maior número da última década), a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde março deste ano, reforçou a responsabilidade das empresas em identificar, prevenir e gerenciar riscos psicossociais, como metas abusivas, jornadas exaustivas, assédio e sobrecarga. A mudança ocorre em um momento em que histórias de adoecimento deixam de ser casos isolados para revelar uma realidade compartilhada por milhares de trabalhadores.
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O cenário preocupa especialistas. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que o recorde de afastamentos registrado em 2024 foi superado em 2025, consolidando uma crise relacionada à saúde mental. No mundo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que mais de 840 mil pessoas morram todos os anos por problemas ligados a riscos psicossociais, como jornadas prolongadas, insegurança no emprego e assédio.
Mais do que números, porém, a realidade aparece nos relatos de quem viveu o problema.
“Foi o pior de todos os traumas”
Aos 38 anos, o empreendedor Tiago Spinoza afirma que a pior experiência profissional da sua vida aconteceu quando trabalhava em uma das maiores redes globais de restaurantes fast-food.
Segundo ele, o ambiente tóxico foi sendo naturalizado dentro da empresa até que se tornou impossível ignorar o impacto causado na própria saúde mental. “Quando comecei a perceber coisas erradas dentro da empresa e, por mais que eu lutasse, entendi que determinadas situações já eram vistas como regra”, relata.

Entre os principais fatores que contribuíram para o desgaste emocional estavam episódios constantes de assédio. “O principal era o assédio, tanto sexual quanto relacionado ao trabalho abusivo.”
Com o passar do tempo, os reflexos ultrapassaram o ambiente corporativo. “Percebi que estava afetando minha vida quando chegava em casa sem ânimo e sem vontade de fazer absolutamente nada.”
Mesmo tentando buscar apoio internamente, Tiago diz que não encontrou acolhimento. “Procurei ajuda, mas não consegui ser ouvido. A gerência era extremamente carrasca e distorcia toda a história. As minhas reclamações nunca chegavam aos superiores.”
Hoje, ele afirma que as consequências ainda influenciam sua forma de enxergar o mercado de trabalho. “Fiquei com medo e decepção de voltar a trabalhar como CLT. Hoje me sinto muito mais livre trabalhando como autônomo e empreendendo no que gosto.”
Apesar de considerar positiva a atualização da NR-1, ele acredita que ainda existem desafios para que a norma seja efetivamente aplicada. “As empresas sempre vão buscar proteger os próprios interesses. Talvez terceirizar essa fiscalização fosse mais seguro e efetivo.”
Adoecimento acontece aos poucos
Para a consultora em Gestão de Pessoas e Desenvolvimento Humano e estudante de Psicologia Anne Stephanie Lago Miranda, o crescimento dos casos está relacionado tanto ao aumento da conscientização quanto às mudanças na forma como o trabalho passou a ocupar a vida das pessoas.
“Hoje existe mais acesso à informação, mais pessoas procurando ajuda e mais profissionais preparados para identificar esses transtornos. Mas também vivemos um cenário de muito mais pressão, insegurança e cobrança constante.”

Segundo ela, o problema não surge de forma repentina. “O adoecimento mental não acontece de um dia para o outro. Ele é resultado de pequenas sobrecargas que vão sendo ignoradas por muito tempo.”
Entre os primeiros sinais estão alterações que muitas vezes acabam sendo normalizadas. “Quando a pessoa acorda já cansada, perde o interesse pelo trabalho, começa a ter dificuldade de concentração, alterações no sono, irritabilidade constante ou sente que nunca consegue descansar, esses são sinais importantes de alerta.”
Ela também chama atenção para mudanças comportamentais. “Aquela pessoa comunicativa que começa a se isolar ou alguém muito produtivo que passa a cometer erros frequentes merece atenção.”
Ambientes podem impulsionar ou adoecer profissionais
Na avaliação da especialista, a forma como o trabalho é organizado exerce influência direta sobre o equilíbrio emocional dos colaboradores. “Quando existem metas impossíveis, medo constante de errar, excesso de horas trabalhadas, assédio ou a sensação de que nada do que a pessoa faz é suficiente, ela passa a trabalhar em estado permanente de tensão.”
Segundo Anne, profissionais submetidos continuamente a esse cenário dificilmente conseguem entregar seu melhor desempenho. “Nenhum profissional consegue entregar o seu melhor quando está apenas tentando sobreviver ao ambiente onde trabalha.”
Ela ressalta que investir em saúde mental também representa ganhos para as empresas. “Cuidar das pessoas melhora produtividade, reduz afastamentos, fortalece o engajamento e ajuda na retenção de talentos.”
Nova NR-1 amplia responsabilidade das empresas
Com a atualização da NR-1, os chamados riscos psicossociais passam a integrar oficialmente o gerenciamento de riscos ocupacionais das empresas, ao lado dos riscos físicos, químicos, biológicos e de acidentes.
Na prática, fatores como assédio moral ou sexual, pressão excessiva, conflitos interpessoais, jornadas exaustivas, metas abusivas, falta de autonomia e problemas na gestão passam a fazer parte das ações de prevenção exigidas pela legislação.
Para Anne Stephanie, essa mudança representa um avanço importante. “A saúde mental deixa de ser apenas um tema de conversa e passa a fazer parte da gestão de riscos das empresas.”

Ela explica que isso exige capacitação de lideranças, fortalecimento da comunicação e ações preventivas antes que o adoecimento aconteça.
“Muitas empresas ainda enxergam a saúde mental como custo, mas o silêncio custa muito mais caro. Afastamentos, alta rotatividade, queda na produtividade e perda de talentos são consequências diretas de ambientes que ignoram esse tema.”
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Cuidar das pessoas também é estratégia de negócio
Enquanto muitos trabalhadores relatam experiências negativas, algumas empresas já investem em medidas preventivas.
Sócia-proprietária de uma cafeteria, Nayana Lima afirma que a empresa contratou uma assessoria especializada em Segurança e Saúde no Trabalho para adequar todos os processos às exigências da nova NR-1.
“Estamos investindo em orientação, treinamentos e acompanhamento contínuo para identificar e gerenciar os riscos psicossociais, promovendo um ambiente de trabalho cada vez mais saudável.”

Segundo ela, a principal ferramenta é a proximidade entre liderança e colaboradores. “Muitas vezes um profissional que não está apresentando os resultados esperados pode estar enfrentando problemas de saúde, ansiedade ou outras questões emocionais. Isso só pode ser identificado quando existe uma liderança presente e uma escuta ativa.”
Além de reuniões periódicas, a empresa oferece flexibilidade de horários quando possível, concede folgas em situações necessárias e incentiva que os funcionários participem de momentos importantes com suas famílias.
Para Nayana, produtividade não pode ser confundida com cobranças excessivas. “O equilíbrio está em capacitar, acompanhar e exigir apenas aquilo que o colaborador tem condições de entregar. Muitos desgastes acontecem quando cobramos resultados sem oferecer treinamento e ferramentas adequadas.”
Ela destaca ainda que investir em pessoas gera retorno para o negócio. “Nossos supervisores e gerentes são treinados para liderar com justiça, empatia e atenção às necessidades das equipes. Como resultado, temos maior engajamento, retenção de talentos e um ambiente de trabalho mais saudável.”

Responsabilidade compartilhada
Embora a nova legislação represente um avanço importante, especialistas reforçam que a prevenção depende da participação de todos.
Para Anne Stephanie, as empresas devem investir em lideranças preparadas, comunicação transparente e prevenção dos riscos psicossociais, enquanto os trabalhadores precisam reconhecer seus próprios limites e buscar ajuda quando necessário. “O primeiro passo é não normalizar o sofrimento. Muitas pessoas acreditam que viver ansiosas ou esgotadas faz parte da vida profissional. Não faz.”
Ela conclui afirmando que ambientes saudáveis são construídos diariamente. “Quando existe diálogo, respeito e uma cultura que valoriza as pessoas, todos ganham: o colaborador, a liderança e a própria organização.”
Diante do aumento expressivo dos afastamentos por transtornos mentais e das novas exigências da legislação, a saúde mental no trabalho deixa de ser apenas uma pauta de recursos humanos e passa a ocupar espaço central nas estratégias das empresas. Especialistas defendem que criar ambientes seguros emocionalmente é uma medida capaz de preservar vidas, fortalecer equipes e garantir relações de trabalho mais humanas e sustentáveis.
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