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SAÚDE MENTAL

Morte de Gabriel Ganley reacende debate sobre pressão estética nas redes sociais

Psicóloga aponta impactos das redes sociais, da comparação constante e do uso precoce de hormônios e anabolizantes na saúde mental de adolescentes e jovens.

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Imagem ilustrativa da notícia Morte de Gabriel Ganley reacende debate sobre pressão estética nas redes sociais camera A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, reacendeu o debate sobre os impactos da pressão estética, da cultura da performance extrema e do uso precoce de anabolizantes entre os jovens. | Reprodução/Instagram - @ganleygabriel

A obsessão pelo corpo perfeito ganhou novos contornos na era digital. Entre vídeos de transformação física, rotinas extremas de treino e padrões corporais cada vez mais inalcançáveis, adolescentes e jovens passaram a conviver com uma pressão silenciosa por desempenho, aparência e validação social. A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, reacendeu um debate delicado sobre os limites da cultura fitness moderna e os impactos emocionais da busca desenfreada por um físico idealizado.

O caso ganhou ainda mais repercussão após o influenciador fitness Rodrigo Góes publicar um pronunciamento emocionado nas redes sociais, defendendo uma discussão mais profunda sobre os excessos do fisiculturismo contemporâneo e os riscos físicos e psicológicos enfrentados por jovens atletas. Em meio às homenagens e reflexões, especialistas alertam para um fenômeno que vai além das academias: a associação entre aparência e aceitação social.

Para analisar o tema, o DOL ouviu a psicóloga clínica e educacional Julianna Ferreira Cerbino, especialista em Neuroeducação, Gerontologia e Psicopedagogia, habilitada em intervenção comportamental para ansiedade e depressão.

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A psicóloga Julianna Cerbino alerta que a busca pelo corpo perfeito nas redes sociais pode transformar a aparência em instrumento de validação social e aumentar riscos emocionais entre jovens.
📷 A psicóloga Julianna Cerbino alerta que a busca pelo corpo perfeito nas redes sociais pode transformar a aparência em instrumento de validação social e aumentar riscos emocionais entre jovens. |Reprodução/Arquivo pessoal

Segundo Julianna Cerbino, a pressão estética nas redes sociais atua diretamente sobre o comportamento de adolescentes e jovens por meio de mecanismos de validação social e repetição de estímulos. "A exposição repetida a corpos considerados 'ideais' passa a sinalizar quais padrões são socialmente valorizados e, portanto, reforçados. Nesse contexto, comportamentos voltados à modificação corporal acabam sendo mantidos principalmente pela validação social, como curtidas, comentários e visibilidade", explica.

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A psicóloga afirma que esse reconhecimento constante cria um ciclo difícil de interromper. "O caráter intermitente desse reforço aumenta a persistência desses comportamentos, tornando-os mais resistentes à mudança. O jovem passa a entender que quanto mais próximo estiver desse padrão corporal, maior será sua aceitação social", destaca.

Julianna também chama atenção para o papel exercido pelos influenciadores digitais no fortalecimento desses modelos estéticos. "Os influenciadores funcionam como referências de comportamento, associando estética corporal a sucesso, pertencimento e reconhecimento. Isso favorece a formação de regras rígidas, como a ideia de que o valor pessoal está diretamente ligado à aparência física", afirma.

BUSCA PELO "CORPO IDEAL" PODE ESCONDER SOFRIMENTO EMOCIONAL

A especialista ressalta que a procura precoce por hormônios e anabolizantes não está relacionada apenas ao desejo de alcançar determinado padrão estético. Em muitos casos, segundo ela, existe uma tentativa de aliviar dores emocionais e sentimentos de inadequação. "O uso precoce de hormônios e anabolizantes muitas vezes não está ligado apenas à estética, mas à tentativa de modular estados internos aversivos, como ansiedade, baixa autoestima e insatisfação corporal", analisa.

De acordo com Julianna, esse comportamento pode funcionar como uma forma de fuga emocional. "Em muitos casos, há um reforçamento negativo, porque a substância produz uma redução temporária do sofrimento psicológico. Ou seja, não se trata apenas de buscar um corpo ideal, mas de escapar de experiências internas consideradas desagradáveis", pontua.

Ela também observa que jovens submetidos constantemente à comparação social acabam desenvolvendo menos recursos emocionais saudáveis para lidar com frustrações e inseguranças. "Quando existe uma história de aprendizagem marcada por críticas constantes ou validação baseada apenas na aparência, ocorre uma restrição do repertório comportamental. Isso reduz estratégias mais adaptativas de enfrentamento e aumenta a probabilidade de adesão a soluções rápidas, mesmo diante dos riscos", alerta.

ESPECIALISTA DEFENDE MUDANÇA NA FORMA DE ENXERGAR O CORPO

Para Julianna Cerbino, a construção de uma relação saudável com o corpo depende de mudanças no ambiente social e nos estímulos oferecidos a adolescentes e jovens. Ela defende que família, escolas, academias e profissionais da saúde precisam trabalhar juntos para romper a lógica de valorização exclusiva da estética.

"A promoção de uma relação mais saudável com o corpo envolve reorganizar as contingências ambientais que mantêm determinados padrões de comportamento. Isso significa deslocar o foco exclusivo da estética para a valorização da saúde, da funcionalidade e do bem-estar", explica.

HÁBITOS SAUDÁVEIS X RESULTADOS FÍSICOS

Segundo a psicóloga, é fundamental reforçar hábitos saudáveis e não apenas resultados físicos. "Pais, escolas, academias e profissionais podem fortalecer comportamentos como consistência, autocuidado e prática segura de atividade física, em vez de reforçar apenas resultados estéticos", afirma.

Ela também considera essencial ampliar o debate sobre os padrões irreais difundidos nas plataformas digitais. "É importante ensinar habilidades de regulação emocional, pensamento crítico em relação às redes sociais e discriminação de padrões corporais irreais. Além disso, precisamos flexibilizar regras rígidas, como a associação direta entre aparência e valor pessoal", ressalta.

O CORPO COMO INSTRUMENTO DE VALIDAÇÃO

Ao refletir sobre os impactos da cultura da performance extrema, Julianna faz um alerta sobre os riscos psicológicos associados à valorização excessiva da aparência. "Quando a aparência passa a ser a principal fonte de reforço, o corpo deixa de ser um espaço de cuidado e passa a ser um instrumento de validação", diz.

Segundo ela, esse cenário aumenta significativamente o risco de adoecimento emocional entre jovens. "Ao ampliar as fontes de reforçamento e oferecer alternativas mais saudáveis de reconhecimento e pertencimento, reduzimos a probabilidade de que adolescentes recorram a práticas de risco para obter aceitação social", conclui.

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